Enquanto a Tesla ainda patina para ganhar tração com os Cybercabs, como foram batizados os robotáxis da empresa, outra gigante de tecnologia quer acelerar a marcha nessa corrida.

A Uber anunciou nesta quinta-feira, 19 de março, que vai investir até US$ 1,25 bilhão, no prazo de cinco anos, na montadora californiana Rivian, em mais um exemplo de parceria costurada pela plataforma de transportes nessa avenida.

Como parte do acordo, sujeito ao cumprimento de determinadas metas, a Uber vai adquirir até 50 mil unidades do Rivian R2, SUV da Rivian, que chegarão às ruas embarcados nos serviços de robotáxi da empresa.

Nessa largada, a expectativa é implantar 10 mil robotáxis totalmente autônomos, com um investimento inicial de US$ 300 milhões. As primeiras implantações do serviço associado a essa frota estão previstas para começar em São Francisco e Miami, em 2028.

A projeção da dupla é chegar a 25 cidades nos EUA, Canadá e Europa até 2031. E, nesse roteiro, a parceria, que envolve exclusividade com a montadora, inclui ainda a opção de negociar a compra de até 40 mil veículos adicionais para serem embarcados no serviço a partir de 2030.

Em nota, Dara Khosrowshahi, CEO da Uber, ressaltou que acredita muito na abordagem da Rivian, baseada em um conceito que integra o desenvolvimento do veículo, a plataforma de computação e o conjunto de softwares, mantendo o controle de ponta a ponta e o fornecimento em escala.

“Essa integração vertical, combinada com os dados da sua base crescente de veículos de consumo e a experiência em gerenciar as complexidades de frotas comerciais, nos dá a convicção necessária para estabelecer essas metas ambiciosas, porém, alcançáveis”, disse o executivo.

Fundador e CEO da Rivian, RJ Scaringe complementou: “Estamos extremamente entusiasmados com essa parceria com a Uber. Ela ajudará a acelerar nosso caminho para a autonomia de nível 4, criando uma das plataformas autônomas mais seguras e convenientes do mundo”.

O acesso a essa tecnologia de direção autônoma é essencial para a Uber imprimir velocidade nesses serviços, já que, em 2020, a empresa se desfez de sua divisão de carros autônomos. Nessa direção, a companhia tem firmado uma série de acordos para fechar essa lacuna.

Na semana passada, por exemplo, a Uber anunciou uma parceria com a Zoox, startup de carros autônomos da Amazon, para iniciar o serviço de robotáxis em Las Vegas e já com planos de expansão para Los Angeles em 2027.

Em julho de 2025, em outro atalho desse percurso, a companhia anunciou um investimento de US$ 300 milhões na também americana Lucid. Entre outros termos, a transação envolveu o compromisso de comprar pelo menos 20 mil veículos elétricos autônomos da montadora.

Ao mesmo tempo, a Uber também fechou parcerias com a Waymo, startup de carros autônomos da Alphabet, dona do Google, em outras praças dos Estados Unidos, como Phoenix e Atlanta. A relação de acordos passa ainda pela chinesa Baidu, com foco na China, Ásia e Oriente Médio.

O que difere boa parte desses acordos feitos até então do que foi anunciado nessa quinta-feira, porém, é o fato de que players como Waymo e Zoox também têm seus próprios aplicativos de robotáxi, ao contrário da Rivian.

Para a Rivian, por sua vez, a parceria e o investimento chegam em meio ao trajeto acidentado da empresa desde o seu IPO, em 2021, quando chegou à bolsa de valores como a “Tesla 2.0”. De lá para cá, a companhia registrou prejuízos e uma queda de 88% em suas ações, segundo o jornal Financial Times.

Com preços acima de US$ 80 mil, os modelos da marca têm tido boa aceitação entre os clientes mais abastados da Califórnia. Mas, à parte desse sucesso, a empresa segue com dificuldade de ganhar escala e prevê vender apenas 62 mil unidades, e apurar um prejuízo ajustado de até US$ 2,1 bilhões em 2026.

Nesse contexto, o desenvolvimento de veículos autônomos para robotáxis começou a integrar a estratégia da empresa, de fato, apenas em 2025. A primeira menção à categoria foi feita pelo fundador e CEO Scaringe, no fim do ano passado.

A reação inicial ao acordo foi positiva. Listadas na Nasdaq, as ações da Rivian chegaram a subir mais de 7% no pre-market dessa quinta-feira. E estavam sendo negociadas com alta de 4,09% por volta das 10h30 (horário local), avaliando a empresa em US$ 20 bilhões.

Enquanto a Rivian enxerga nos robotáxis um atalho para começar a resolver o seu problema de escala, a Tesla ainda pena para engrenar seus serviços na categoria. E esse foi um dos temas abordados por Musk na divulgação do balanço do quarto trimestre de 2025 da empresa, realizada em janeiro deste ano.

Entre outros números, a Tesla reportou um recuo de 3% na receita de 2025, a primeira queda anual da sua história, além de um lucro líquido de US$ 3,7 bilhões, o que representou uma retração de 46% sobre 2024.

Mesmo com esses e outros indicadores pouco favoráveis, na oportunidade, como de costume, Musk aproveitou para vender seu peixe aos investidores, ao ressaltar que a empresa está fazendo grandes investimentos para um “futuro épico”.

Com o plano de investir mais de US$ 20 bilhões em 2026, mais que o dobro dos US$ 8,5 bilhões aportados em 2025, o bilionário ressaltou que uma parte importante nesse trajeto será o foco em avançar justamente em frentes como os robotáxis.

Hoje, o serviço da Tesla nessa corrida está disponível apenas em Austin, no Texas. Musk afirmou, porém, que espera expandir essa oferta numa área de um quarto a metade dos Estados Unidos até o fim de 2026. A meta inicial, porém, era o fim de 2025.

Ao mesmo tempo, ele afirmou que planeja iniciar a produção dos Cybercabs em abril. “Esperamos que, com o tempo, produzamos muito mais Cybercabs do que todos os nossos outros veículos juntos”, disse o bilionário.

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