Por Antonio Vinhas*
Durante anos, o M&A (fusão e aquisição) em tecnologia foi tratado como uma corrida por crescimento. Quem escalasse mais rápido, levantasse mais capital e projetasse um futuro maior parecia automaticamente mais valioso. Esse ciclo terminou.
Depois do pico de 2021 e da correção dura de 2022 e 2023, o mercado entrou em uma nova fase. O movimento atual não é apenas uma retomada de atividade, mas uma mudança estrutural na lógica das transações. Sai a narrativa otimista. Entra a evidência operacional. Sai o crescimento por crescimento. Entra a criação real de capacidade competitiva.
Os números mostram isso com clareza. Em 2024, tecnologia respondeu por cerca de 83% do volume e 75% do valor das transações dentro de TMT. Ao mesmo tempo, o volume de operações caiu aproximadamente 29%, enquanto o valor total subiu mais de 30%. O mercado fez menos negócios, mas negócios maiores. Software concentrou cerca de 65% do valor total transacionado em tecnologia no ano.
Isso significa uma coisa simples: a régua subiu.
Compradores continuam pagando caro, mas apenas quando enxergam base recorrente sólida, retenção consistente, propriedade intelectual defensável e uma tese clara de sinergia e integração. O discurso de “potencial” perdeu força. Entraram em cena eficiência, dados, diferencial de produto e resiliência operacional.
Nesse contexto, a Inteligência Artificial deixou de ser um tema de produto para se tornar um motor estrutural de M&A. Em 2024, o valor global de transações em TI chegou a aproximadamente 740 bilhões de dólares, crescimento de quase 50% em relação ao ano anterior, impulsionado diretamente pela corrida por capacidades ligadas a IA, infraestrutura de dados, cloud, chips e segurança.
Mais do que adquirir funcionalidades, empresas estão comprando tempo, know how e posição estratégica.
Esse movimento também mudou a forma como o próprio M&A é conduzido. Um estudo recente da Deloitte mostra que mais de 80% das organizações já incorporaram ferramentas de GenAI em alguma etapa do processo de M&A, da triagem de alvos à diligência e análise de riscos. A tecnologia passou a ser parte tanto do objeto quanto do método da transação.
Em 2025, o mercado global voltou a acelerar em valor. Estimativas baseadas em dados da LSEG indicam que o dealmaking global superou 4 trilhões de dólares no ano, com crescimento de cerca de 45% sobre 2024. A combinação entre ambiente de juros mais favorável e corrida por ativos estratégicos ligados à IA reposicionou a tecnologia como eixo central das decisões de alocação de capital.
No Brasil, o movimento seguiu a mesma direção. A KPMG registrou mais de 1.580 operações de M&A em 2024. No recorte de tecnologia, o ecossistema entrou em uma fase mais madura depois da euforia de 2020 e 2021 e da correção de 2022 e 2023. O mercado ficou mais racional, mais técnico e mais exigente.
Na prática, o que compradores procuram hoje em empresas de tecnologia é menos discurso e mais evidência. Em processos bem sucedidos, dois critérios aparecem de forma recorrente:
É por isso que tantas transações travam antes mesmo da negociação. Em M&A de tecnologia, os maiores problemas raramente estão no contrato. Eles aparecem em três lugares silenciosos: fragilidade de ativos intangíveis, valuation desconectado da capacidade real de execução e integração subestimada em pessoas, dados, sistemas e governança.
Por isso, a preparação virou o principal fator de criação de valor em M&A.
Empresas que organizam sua informação financeira e operacional, estruturam uma tese clara de por que e para que fariam uma transação e mapeiam riscos críticos antes de ir ao mercado negociam melhor, sofrem menos surpresas e preservam mais valor.
O ponto central é que M&A em tecnologia deixou de ser um evento oportunístico. Passou a ser uma decisão de recomposição estratégica. A pergunta relevante já não é apenas quanto vale essa empresa, mas quais capacidades essa transação cria e quais riscos ela traz para dentro da organização.
Quem entende isso chega ao mercado com mais poder de negociação, menos improviso e resultados estruturalmente melhores.
Se esse tema está no radar da sua empresa, seja para crescer por aquisições ou para preparar uma eventual saída, a águilahub atua justamente nesse ponto: estruturar a tese estratégica, organizar o readiness e conduzir processos de M&A com critério, previsibilidade e leitura real de risco.
*Antonio Vinhas é managing partner da Águilahub.
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