O surgimento da controversa Tilly Norwood, no ano passado, reacendeu o debate em Hollywood sobre o impacto da tecnologia no futuro da atuação. Criada pelo estúdio Particle6, a atriz de IA repercutiu (de maneira negativa) entre os membros da classe artística nos EUA e ao redor do mundo. Recentemente, o estúdio anunciou que vai lançar novos atores sintéticos ainda em 2026.
A polêmica se soma a anos de tensão acumulada desde a greve histórica do SAG-AFTRA, o sindicato dos atores dos Estados Unidos, em 2023. A entidade buscava, entre outras demandas, maior proteção aos seus associados contra o uso indiscriminado de sua imagem e voz no treinamento de inteligências artificiais, e também contra o uso de tecnologias digitais capazes de substituir o trabalho dos atores.
Após as greves, o SAG-AFTRA firmou um acordo com a AMPTP — representante das produtoras de cinema, televisão e streaming americanas — no qual exigia cláusulas de consentimento e compensação nos contratos de atores para réplicas digitais geradas por IA. Mas diversos artistas consagrados seguiram manifestando sua preocupação com o crescimento da tecnologia, enquanto outros a enxergaram como uma oportunidade.
Confira a posição de cada um.
A atriz teve conflitos legais com a OpenAI e é uma das líderes do movimento Stealing Isn't Innovation ("roubar não é inovação") — Foto: Getty Images
Em maio de 2024, a atriz ficou "chocada, enfurecida e incrédula" ao descobrir que a OpenAI havia lançado uma assistente de voz chamado Sky que, segundo ela, soava de forma perturbadoramente similar à sua própria voz. Johansson havia recusado o convite da empresa para vocalizar o ChatGPT 4.0, alegando que a proposta contrariava seus valores pessoais. O surgimento de uma "sósia vocal" foi a gota d'água. Sua equipe jurídica enviou dois comunicados à OpenAI exigindo explicações, e a voz foi retirada do ar.
Em sua declaração à CNBC, Johansson disse: "Em um momento em que todos enfrentamos deepfakes e precisamos cuidar da proteção de nossa própria imagem, nosso próprio trabalho, nossas próprias identidades, acredito que essas são questões que merecem absoluta clareza." A atriz foi além da disputa pessoal e se tornou porta-voz da causa, participando em janeiro de 2026 a dcampanha Stealing Isn't Innovation ("roubar não é inovação"), mobilização que reuniu mais de 800 criadores contra o uso não autorizado de obras humanas para treinar sistemas de IA.
Ator também é considerado um ativista sobre temas de segurança da informação e os rumos da inteligência artificial — Foto: Getty Images
Gordon-Levitt é cofundador da plataforma colaborativa HITRECORD, uma plataforma colaborativa online onde artistas contribuem com seus trabalhos para criar projetos criativos coletivos e dividem os lucros quando o conteúdo é comercializado. Ele também foi um dos organizadores do Creators Coalition on AI, grupo lançado em dezembro de 2025 que reúne cineastas, produtores e atores para pressionar por regulamentação ética da tecnologia.
No Festival de Sundance de 2026, em fevereiro, durante um painel organizado pelo The Hollywood Reporter, Gordon-Levitt declarou que a indústria de tecnologia se tornou "um bando de Lex Luthors" — em referência ao famoso vilão das histórias do Super-Homem — e propôs uma releitura do termo “inteligência artificial”. “Vamos chamá-la de 'inteligência coletiva'", argumentando que sistemas de IA não geram nada artificialmente, mas sim decompõem a humanidade em dados.
Conhecida por seus papéis em clássicos como "Mudança de Hábito" e "Ghost", Goldberg também é apresentadora de um talk show na TV americana — Foto: Getty Images
Em setembro de 2025, reagindo ao lançamento de Tilly Norwood, Whoopi Goldberg afirmou que o uso da tecnologia era desleal. "Você está diante de algo gerado usando dados de 5 mil outros atores.” Mas a atriz e apresentadora do talk show The View também demonstrou confiança no trabalho humano. “Podem fazer o que quiser. Sempre vai ser possível diferenciar IA de atores reais. Nós nos movemos de forma diferente, nossos rostos se expressam de maneira diferente." Goldberg disse esperar que os atores humanos consigam se manter, apontando a conexão emocional com o público como a principal vantagem dos artistas de carne e osso.
Atriz se surpreendeu durante uma entrevista ao conhecer Tilly Norwood, atriz sintética lançada em setembro de 2025 — Foto: Getty Images
Na mesma época das declarações de Goldberg, Emily Blunt não disfarçou a perturbação ao ver imagens de Tilly Norwood durante uma entrevista à Variety. "Não, isso é uma IA? Meu Deus, estamos lascados. Isso é realmente, realmente assustador.” Blunt ainda fez um apelo a agências que se interessassem por adotar os serviços da atriz sintética. “Não façam isso. Por favor, parem de tirar nossa conexão humana." Quando informada de que os criadores queriam que Norwood fosse "a próxima Scarlett Johansson", a atriz britânica respondeu. "Mas nós temos Scarlett Johansson."
Famoso pelo papel de Neo em "Matrix", Reeves já tem se protegido contra a manipulação digital da sua imagem em seus filmes há mais de 20 anos — Foto: Getty Images
O ator canadense age há anos como se a ameaça da IA já fosse uma realidade. Ele inclui uma cláusula em todos os seus contratos de filmagem proibindo a manipulação digital de suas performances sem sua permissão explícita. A prática remonta ao início dos anos 2000, quando uma produção adicionou uma lágrima ao seu rosto sem consultá-lo. "É como se eu não precisasse nem estar aqui", Reeves disse à Variety em 2023.
Para o ator, deepfakes representam uma perda fundamental de controle. "Quando você atua em um filme, sabe que aquilo será editado, mas há uma participação sua ali. Se você entra no território dos deepfakes, não há nenhum ponto de vista seu. Isso é assustador." De acordo com o The Hollywood Reporter, Reeves paga mensalmente uma empresa chamada Loti AI para localizar e derrubar imitadores digitais em plataformas como TikTok e Meta. Em um único ano, 40 mil ordens de remoção foram emitidas em seu nome.
O ator texano causou polêmica ao assinar com a ElevenLabs para digitalizar sua voz, e afirmou que o Oscar pode ter uma categoria para atores ou filmes de IA no futuro — Foto: Gareth Cattermole/Getty Images
McConaughey representa uma das facetas mais controversas do debate: a de quem decidiu colaborar com a IA em seus próprios termos. Em novembro de 2025, o ator anunciou uma parceria com a empresa de clonagem de voz ElevenLabs, na qual também é investidor, para criar uma versão em espanhol de sua newsletter usando sua própria voz digitalizada. Para o ator, o acordo é uma forma de se proteger legalmente contra o uso indevido de sua semelhança.
Em fevereiro deste ano, em um evento organizado pela Variety em parceria com a CNN, o ator declarou que a IA já havia chegado ao entretenimento e que, nos próximos cinco anos, poderia haver categorias de "Melhor Ator de IA" ou "Melhor Filme de IA" no Oscar.
Dono de uma das vozes mais marcantes do cinema mundial, Michael Caine busca imortalizar seu legado por meio da inteligência artificial — Foto: Getty Images
Aos 92 anos, o veterano britânico Michael Caine também assinou com a ElevenLabs para integrar o "Iconic Voice Marketplace", plataforma que licencia sua voz para projetos de terceiros. Em sua declaração, Caine foi claro sobre a sua intenção.
“Durante anos, emprestei minha voz a histórias que comoveram as pessoas — relatos de coragem, de sagacidade e do espírito humano. Agora, estou ajudando outras pessoas a encontrar a voz delas. Com a ElevenLabs, podemos preservar e compartilhar vozes — não apenas a minha, mas a de qualquer pessoa.” Para o ator, "não se trata de substituir vozes; trata-se de amplificá-las."
Kutcher é entusiasta da inteligência artificial, e investe em empresas do ramo por meio do fundo Sound Ventures — Foto: GETTY IMAGES
Outro artista que causou polêmica no debate sobre o uso de IA no cinema foi Ashton Kutcher. Em junho de 2024, o ator e investidor de risco — seu fundo Sound Ventures tem participações em OpenAI, Anthropic e Stability AI — afirmou ter testado o modelo de geração de vídeo Sora, da OpenAI, e concluído que era questão de tempo para que filmes inteiros fossem produzidos por IA. "Você vai poder renderizar um filme inteiro. Vai ter uma ideia, a IA vai escrever o roteiro, você vai inserir o roteiro no gerador de vídeo e ele vai fazer tudo", previu.
A reação da indústria foi furiosa. De acordo com a Fortune, roteiristas, atores e críticos o acusaram de negligência e conflito de interesses. Em resposta, Kutcher publicou um post no X em que dizia: “Precisamos estar preparados e entender o que está por vir”.
Ator vendeu recentemente à Netflix sua startap que utiliza IA na pós-produção de filmes e séries — Foto: Getty Images
Em novembro de 2024, Ben Affleck entrou na discussão com declarações mais ponderadas sobre o tema. Em entrevista à CNBC, o ator e cineasta afirmou: "A IA pode escrever versos imitativos excelentes que soam elizabetanos. Ela não pode escrever Shakespeare." Para Affleck, a IA é "um artesão, no melhor dos casos. Artesanato é saber como trabalhar. Arte é saber quando parar. Vai ser difícil para a IA aprender quando parar, porque é uma questão de gosto."
Neste mês de março, a Netflix adquiriu a startup InterPositive, fundada por Affleck e especializada no uso de ferramentas de IA para a pós-produção de filmes e séries, auxiliando em correções na edição, iluminação e efeitos visuais. O modelo está alinhado à posição do ator, que irá atuar como conselheiro na empresa de streaming, para acompanhar a integração da tecnologia.

