Dispositivo aprovado na China combina sensores cerebrais implantados e luva robótica para auxiliar pacientes com paralisia parcial nos membros superiores — Foto: Sergeii Iranemenko/Science Photo Library via Getty Images
O governo chinês concedeu, pela primeira vez, aprovação regulatória para uso comercial de um implante cerebral invasivo no país. O aval partiu da Administração Nacional de Produtos Médicos (NMPA, na sigla em inglês) e foi concedido à Neuracle Technology (Shanghai) Co., empresa local de neurotecnologia, conforme reportagem da Bloomberg. A decisão coloca a China no seleto grupo de países com dispositivos desse tipo autorizados para aplicação clínica.
O produto é destinado a adultos com paralisia parcial dos membros superiores causada por lesões na medula espinhal. Nos testes clínicos com 36 pacientes, o sistema ajudou os participantes a melhorar a capacidade de segurar e manipular objetos com as mãos.
O sistema da Neuracle não é apenas um chip implantado no crânio. Trata-se de uma solução integrada que combina sensores cerebrais implantados, uma luva robótica, algoritmos de decodificação de sinais neurais, softwares de avaliação médica e ferramentas de gestão clínica. O conjunto capta sinais do cérebro e os traduz em comandos para a luva, que auxilia os movimentos da mão do paciente.
O dispositivo tem escopo mais restrito do que implantes similares desenvolvidos no exterior: é indicado apenas para pacientes que ainda preservam alguma função residual nos membros superiores, não para casos de paralisia total. O projeto também conta com menos canais de detecção de sinais e posiciona os sensores fora da membrana que envolve o cérebro, o que limita a precisão na captação de dados neurais em comparação com concorrentes mais avançados.
A aprovação ocorre em meio a uma disputa crescente entre startups chinesas de neurotecnologia e rivais norte-americanas, com destaque para a Neuralink, empresa do bilionário Elon Musk. Enquanto a companhia americana avança nos testes com humanos nos Estados Unidos, empresas chinesas do setor passaram a contar com apoio explícito do governo de Pequim, que incluiu as interfaces cérebro-computador entre as seis indústrias estratégicas do atual plano quinquenal. O governo também sinalizou intenção de simplificar revisões regulatórias e definir regras de reembolso para esses produtos antes mesmo de chegarem ao mercado em larga escala.
A aprovação da Neuracle desencadeou valorização nas bolsas de empresas ligadas a tecnologias de interface cérebro-computador em Hong Kong. Entre as beneficiadas estão a Sanbo Hospital Management Group, a Innovation Medical Management Co. e a Nanjing Panda Electronics Co., com altas superiores a 10%.
A Shanghai StairMed Technology Co., uma das primeiras empresas chinesas a conduzir testes clínicos com implantes cerebrais em escala comparável à Neuralink, captou 500 milhões de yuans (cerca de R$ 395 milhões) em rodada liderada pelo Alibaba Group, com planos de ampliar os testes para mais 40 pacientes. A Chengdu Gestala Technology Co., que adota abordagem tecnológica próxima à da Merge Labs (startup ligada a Sam Altman) anunciou rodada seed de 150 milhões de yuans. Nos Estados Unidos, a Science Corp. levantou US$ 230 milhões para expandir operações e desenvolver novos dispositivos cerebrais.


