Caminho Getty Images Existe uma ideia confortável e perigosa que ainda seduz muitas lideranças: a de que clareza absoluta é sinônimo de maturidade, intelig Caminho Getty Images Existe uma ideia confortável e perigosa que ainda seduz muitas lideranças: a de que clareza absoluta é sinônimo de maturidade, intelig

O perigo de achar que já se encontrou

2026/03/13 17:01
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Caminho — Foto: Getty Images Caminho — Foto: Getty Images

Existe uma ideia confortável e perigosa que ainda seduz muitas lideranças: a de que clareza absoluta é sinônimo de maturidade, inteligência e sucesso. Ter todas as respostas, um plano fechado, um destino bem definido. Parece profissional. Parece seguro. Parece… falso.

As pessoas mais inteligentes e criativas que conheço vivem em um estado de caos em harmonia. São inquietas, mudam de rota, questionam escolhas recentes, reformulam ambições. Às vezes não sabem exatamente o que querem fazer ou sabem, mas só por enquanto. E isso não é fraqueza. É sinal de vitalidade cognitiva.

Saber que se está perdido é, paradoxalmente, um ótimo ponto de partida. O problema real é outro: acreditar que já se encontrou. Esse é o momento em que muitos líderes congelam. Mantêm discursos seguros, estratégias repetidas, decisões previsíveis, mesmo quando o mundo ao redor já mudou completamente. Continuam andando em linha reta… na direção errada.

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No contexto corporativo, esse fenômeno aparece o tempo todo. Executivos que confundem consistência com rigidez. Empresas que chamam de “foco estratégico” aquilo que, na prática, é medo de rever decisões passadas. Times que operam no piloto automático porque “sempre foi assim”. O resultado não é estabilidade. É uma estagnação disfarçada de controle.

Não saber exatamente qual é o seu talento ou sentir que ele está mudando é mais comum entre pessoas altamente talentosas do que se imagina. Porque talento não é um ponto fixo, é um campo de exploração. Quem tem curiosidade real testa, erra, cruza disciplinas, abandona certezas antigas. Quem não tem, se apega a um rótulo e o transforma em identidade vitalícia.

Movimento é inteligência em ação. Não no sentido de agitação vazia, mas de capacidade de aprender em tempo real. De ajustar hipóteses. De perceber sinais fracos. De aceitar que decisões boas em 2022 podem ser decisões ruins em 2026, e tudo bem. O mundo não premia mais quem “acertou uma vez”. Premia quem consegue recalibrar.

No filme de apocalipse zumbi chamado WORLD WAR Z, com o lindo e maravilhoso Brad Pitt, tem uma hora que ele encontra um morador escondido com sua família, que está com medo de sair do seu apartamento por conta dos zumbis, e o Brad, com sua exuberância, fala: "Movimento é vida". Em todas as guerras já existentes na história, os exércitos e tropas que não se moveram, morreram. De fato, não precisa ver filme de zumbi para entender que tudo que está vivo, se mexe. Tudo que está morto, para de se mexer. Movimento é o primeiro sintoma da vida e o primeiro sintoma da morte.

Por isso, a estagnação deixou de ser apenas um problema de ritmo. Hoje, ela é um problema cognitivo. Um estado de empobrecimento intelectual. Quando um líder para de se mover, não é só o corpo organizacional que trava. É o pensamento. É a leitura de contexto. É a capacidade de imaginar futuros possíveis.

Chamamos isso, com frequência, de falta de inovação. Mas o nome mais honesto é outro: comodidade intelectual. A crença de que já se sabe o suficiente. De que o repertório está completo. De que o modelo mental que trouxe sucesso até aqui será suficiente para o próximo ciclo. Raramente é.

Há algo profundamente humano e estratégico em admitir: “eu não sei”. “Ainda não sei.” “Isso talvez não faça mais sentido.” Em ambientes complexos, essa postura não diminui a autoridade de uma liderança. Ela a fortalece. Porque cria espaço para aprendizado coletivo, para experimentação responsável e para decisões menos baseadas em ego e mais em realidade.

Líderes relevantes hoje não são os que transmitem certeza o tempo todo. São os que conseguem sustentar a ambiguidade sem paralisar. Que seguem em movimento mesmo sem mapa definitivo. Entendem que estratégia não é um plano imutável, mas uma conversa contínua entre intenção e contexto.

O maior risco não é mudar demais. É não mudar por acreditar que já se chegou lá. Em um mundo que se reorganiza constantemente, a sensação de “já me encontrei” costuma ser o primeiro sintoma de desconexão.

A ciência já provou isso no estudo chamado Efeito Dunning Kruger. O efeito Dunning-Kruger nasceu de um estudo clássico de 1999, em que os psicólogos David Dunning e Justin Kruger pediram que estudantes avaliassem seu desempenho em testes de lógica, gramática e humor. O resultado foi quase poético: quem teve os piores desempenhos foi justamente quem mais superestimou a própria nota.

Não era só falta de habilidade, era falta de habilidade para perceber a própria falta de habilidade. Em outras palavras, o mesmo “buraco” de conhecimento que derrubava o desempenho também inflava a autoconfiança. Já os mais competentes tendiam a subestimar levemente sua performance, porque conseguiam enxergar nuances e complexidades que os iniciantes nem imaginavam existir. Moral da história: quanto mais você aprende, mais descobre o tamanho do oceano e menos sai por aí achando que já atravessou tudo a nado.

Quanto mais sabe a pessoa, mais sabe que não sabe, e mais tem que se mexer para saber mais. Como diria minha mãe: tem que se coçar.

Talvez seja hora de ressignificar o estar perdido. Não como falha, mas como estado legítimo de exploração. Talvez o caos, quando há valores claros e curiosidade ativa, não seja desordem, mas um sistema vivo tentando se adaptar.

Porque, no fim das contas, movimento não é só ação. É consciência. E a verdadeira burrice hoje não está em errar caminhos, mas em insistir em permanecer parado enquanto tudo ao redor segue em frente.

Mexa-se!

*Eduardo Paraske é co-fundador e sócio da consultoria de inovação 16 01

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