Depois de sinalizar “dúvidas significativas” sobre a continuidade de seus negócios na divulgação dos resultados do quarto trimestre, o GPA entrou com um pedido de recuperação extrajudicial.
A medida, protocolada na madrugada desta terça-feira, 10 de março, visa a reestruturar dívidas não operacionais da ordem de R$ 4,5 bilhões, para que Alexandre Santoro, que assumiu o comando da varejista há 60 dias, comece a colocar em prática a sua proposta de reestruturação operacional.
“Parte do meu mandato é aumentar a eficiência operacional da companhia, que gera caixa operacional e tem muita oportunidade”, diz o CEO do GPA ao NeoFeed. “A outra parte é resolver questões estruturais. Uma delas é a dívida financeira.”
O efeito imediato do protocolo da recuperação extrajudicial é a suspensão imediata, por 90 dias, de qualquer execução e de carência de pagamento dos juros no período contra o dono do Pão de Açúcar e do Extra.
O CEO do GPA diz que o pedido de recuperação extrajudicial não vai afetar as operações do GPA. Em carta enviada a fornecedores na semana passada, o executivo buscava aplacar os ânimos dos fornecedores em relação as notícias sobre renegociação de dívidas.
“O pedido de recuperação extrajudicial não afetará os pagamentos aos fornecedores. Ele tampouco envolve o aluguel de loja, nem os salários dos colaboradores”, diz Santoro. “A extrajudicial é uma alternativa que consegue isolar com clareza o dia a dia, além de dar celeridade para resolver o problema.”
Segundo Santoro, a proposta de entrar com um pedido de recuperação extrajudicial contou com credores não operacionais que respondem por cerca de 46% da dívida, boa parte deles bancos. O NeoFeed apurou que Itaú, HSBC, Rabobank e BTG Pactual estão apoiando a proposta.
Ele diz também que o pedido foi aprovado por unanimidade pelo conselho de administração, com o apoio dos três principais acionistas do GPA: Grupo Coelho Diniz, com 24,6%; Casino, com 22,5%; e Silvio Tini, que no agregado conta com cerca de 16,1%.
Durante o período de 90 dias, o GPA vai em busca de apoio dos outros credores – a empresa precisa de mais de 50% –, negociando os termos da reestruturação financeira, que ainda está nos estágios iniciais. Para ajudar nesse processo, a companhia contratou o escritório de advocacia Munhoz Advogados, especializado no tema.
“Não tem nada definido [dos termos da reestruturação], estamos no campo das ideias, com algumas discussões sobre o que faz sentido”, afirma Pedro Albuquerque, CFO e diretor de relações com investidores do GPA.
O pedido de recuperação extrajudicial vem num momento em que a empresa possui vencimentos importantes nos próximos meses e também no médio prazo.
Com o caixa sob pressão, ainda que positivo, o GPA tem cerca de R$ 1,7 bilhão em dívidas a vencer nos próximos 12 meses, enquanto o fluxo de caixa operacional, após as variações de capital de giro, atingiu R$ 1,3 bilhão no fim de 2025, avançando 37,8%.
O aperto financeiro fez com que o GPA alertasse, no balanço do quarto trimestre de 2025, para a “existência de incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa sobre a continuidade operacional da companhia” em função de determinadas condições.
A empresa informou que, no fim de 2025, apresentava um déficit de capital circulante líquido de aproximadamente R$ 1,22 bilhão, fechando o ano com um prejuízo de R$ 651 milhões, uma melhora de 61% ante o ano anterior. A alavancagem financeira subiu de 1,6 vezes para 2,4 vezes.
O GPA lida ainda com cerca de R$ 17 bilhões em contingências fiscais e trabalhistas. Além de fatores que fogem ao controle da operação, mas que só agravam essa situação, como o aumento da taxa básica de juros, o que impactou duramente o custo das dívidas contraídas em gestões anteriores.
A situação fez com que, no começo do mês, a Fitch Ratings cortasse a nota nacional de longo prazo do GPA em quatro degraus, de ‘A(bra)’ para ‘CCC(bra)’. Na decisão, a agência de classificação declarou que a companhia enfrenta riscos elevados de refinanciamento, enquanto sua posição de liquidez se enfraqueceu.
A expectativa da Fitch é de que os fluxos de caixa livres se manterão negativos a médio prazo “na ausência de uma redução material em seu endividamento”.
Com a renegociação do passivo, Santoro espera que os ajustes operacionais que vêm promovendo comece a aparecer nos resultados do GPA. A companhia quer reduzir as despesas operacionais, ligadas principalmente ao suporte da operação de lojas e estrutura administrativa, em pelo menos R$ 415 milhões.
O GPA também pretende reduzir o capex de 2026 para uma faixa de R$ 300 milhões a R$ 350 milhões, abaixo dos R$ 612 milhões registrados no ano passado. “Operacionalmente, existem oportunidades para serem capturadas, mas não é que exista um problema no dia a dia do nosso negócio”, diz.
As ações do GPA fecharam o pregão com queda de 5,21%, a R$ 2,73. Em 12 meses, os papéis acumulam queda de 31%, levando o valor de mercado a R$ 1,3 bilhão.


