Um cinema em obras no Edifício Copan, no centro de São Paulo, ambienta a peça Hamlet, Sonhos que Virão. A versão do diretor Rafael Gomes para o clássico de William Shakespeare é apresentada em meio à reforma do futuro Nu Cine Copan, previsto para ser inaugurado em 2027 em uma parceria do Nubank e da empresa Viva do Brasil.
Por enquanto é tudo cimento e tijolos à mostra, contribuindo para a tragédia do príncipe da Dinamarca (interpretado por Gabriel Leone) comover plateias em uma experiência capaz de extrapolar o teatro. O conceito de site-specific – comum na Europa e nos EUA, mas pouco difundido por aqui – consiste em usar a arquitetura como aliada da dramaturgia teatral.
O público chega ao prédio projetado por Oscar Niemeyer (1907-2012), cruza a movimentada galeria comercial e, no fundo do primeiro andar, encontra o Cine Copan, fechado desde 1986.
No hall, uma instalação expõe antigas poltronas e pichações com frases de Shakespeare, como a célebre “ser ou não ser,” pronta para saciar o desejo por fotos instagramáveis.
Ao acessar o espaço teatral, outra surpresa: os espectadores são acomodados em 350 cadeiras na área antes destinada à tela. A encenação se desenvolve no imenso espaço onde ficavam as poltronas da sala de exibições, que, no projeto de Niemeyer, contava com 1200 lugares. (Depois da revitalização concluída serão 442.)
Não se pode esquecer, porém, que se está ali pelo teatro e, neste quesito, Hamlet, Sonhos que Virão prova a supremacia de um clássico. Escrita entre 1599 e 1601, talvez seja a mais famosa peça do teatro ocidental. O diretor Rafael Gomes a define como o Monte Everest da dramaturgia. “Quando chegamos perto do seu topo, entendemos a razão que nos faz fascinados pelo teatro,” ele disse ao Brazil Journal.
A trama rendeu filmes protagonizados por Laurence Olivier (1907-1989), Richard Burton (1925-1984), Mel Gibson e Kenneth Branagh, e inspirou a animação O Rei Leão. Nos palcos brasileiros, ganhou desempenhos marcantes de Sérgio Cardoso (1925-1972), Walmor Chagas (1930-2013), Diogo Vilela, Wagner Moura e Thiago Lacerda, entre tantos.
Na trama, o rei da Dinamarca morre, e o príncipe Hamlet, seu óbvio sucessor, é surpreendido por um golpe do tio, Claudius (papel de Eucir de Souza). Ele se casa com a viúva, a rainha Gertrudes (vivida por Susana Ribeiro), assume o trono e centraliza o poder. O melhor é se livrar do sobrinho.
Decidido a vingar o provável assassinato, o personagem-título se finge de louco e, vítima do próprio personagem que inventou, oscila entre a lucidez e o desvario. Conta com o apoio dos amigos Horácio e Laertes (papéis de Felipe Frazão e Bruno Lourenço) e, em sua crise de personalidade, desestabiliza Ofélia (a atriz Samya Pascotto), jovem apaixonada por ele.
Revelado e consagrado pelo teatro, Rafael Gomes é também cineasta – explicação para suas escolhas nesta montagem. Ganhou reconhecimento com a adaptação para os palcos dos clássicos Um Bonde Chamado de Desejo (2015), de Tennessee Williams, e Gota D’Água [A Seco] (2016), de Chico Buarque e Paulo Pontes, mas sua formação vem da faculdade de cinema.
Aos 23 anos, foi um dos criadores do vídeo Tapa na Pantera, protagonizado pela atriz Maria Alice Vergueiro (1935-2020), um dos primeiros fenômenos do YouTube, em 2006. Hoje com 43 anos, nos intervalos da carreira teatral já assinou quatro longas: 45 Dias Sem Você (2018), Música para Morrer de Amor (2019), Meu Álbum de Amores (2023) e Amigos sem Compromisso (2024).
Não foi à toa que Gomes concebeu Hamlet, Sonhos que Virão para ser visto em um cinema destruído. “É uma peça ambientada em um palácio onde os seres humanos estão em ruínas,” justifica. O diretor, que sempre faz teatro com inspiração cinematográfica, desta vez trata o espetáculo como um filme e funde as linguagens com domínio raro.
A impressionante iluminação criada por Wagner Antônio proporciona imagens inesquecíveis, com profusões de tons e capacidade de transformar espaços. Uma delas, o mergulho fatal de Ofélia no rio, que começa no antigo mezanino do cinema e divide a parede em tons verdes, deve resistir viva nas memórias do público.
Algumas vezes, os atores flutuam pelo palco sobre um trilho e, como em um travelling (movimento em que a câmera se desloca fisicamente sobre uma plataforma), o olhar do público os acompanha pelo enorme palco.
Em contraste ao distanciamento, Gabriel Leone protagoniza os monólogos de Hamlet em uma cadeira que fica a meio metro das primeiras fileiras da plateia. O cara a cara do ator com o público é uma espécie de close-up (o enquadramento de câmera fechado no rosto do personagem), que explicita suas diferentes emoções em uma proximidade incomum no teatro.
Leone, um artista profícuo no audiovisual, surpreende pela visceralidade. Ele injeta um deboche na loucura de Hamlet pensada para confundir os algozes da ficção e estabelece uma vibrante comunicação com o público que digere mais facilmente a jornada do personagem.
Em meio a tantas releituras atualizadas de Shakespeare, muitas delas ótimas, Hamlet, Sonhos que Virão não busca a contemporaneidade a partir de modificações ou novas interpretações no texto. Pelo contrário, é muito fiel ao original.
O diferencial está em um apurado conceito que transforma a tragédia do Bardo em um evento interessante a diferentes tipos de público sem deixar de priorizar os múltiplos princípios artísticos.
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