O professor e advogado João Batista Tezza colidiu com uma Kombi quando pilotava sua lambreta pelo centro de Lages, cidade da Serra Catarinense. O “fatal acidente” ocorreu às 17h45 do dia 22 de julho de 1959, uma quarta-feira, segundo registrou o Correio Lageano.
A vítima, em estado grave, foi levada ao hospital. “Baldados foram os esforços da medicina, pois que o Dr. João Batista Tezza veio a falecer ás 16,15 horas da quinta-feira”, informou o jornal, no português da época.
“Viveu exatos quarenta e oito anos, dois meses e dez dias.”
A citação anterior já não vem do Correio Lageano: é como se encerra o primeiro capítulo de Visita ao Pai (Companhia das Letras), de Cristovão Tezza, filho de João Batista. (Compre aqui)
Hoje com 73 anos, o escritor – o caçula entre quatro irmãos – contava apenas seis quando o pai morreu. Guardou dele “poucas e vagas memórias infantis” que dificilmente dariam um livro de 448 páginas.
O próprio João Batista, porém, deixou fartos subsídios para o filho: os cadernos nos quais copiou as cartas remetidas a familiares e amigos ao longo de 28 anos. O pai que Cristovão Tezza visita em seu novo livro é o personagem que o próprio João Batista foi construindo a partir desses manuscritos.
Doados pela irmã ao “escritor da família”, os 22 cadernos (seriam 26, mas quatro se perderam) ficaram por anos quase intocados por Tezza. Folheando aquelas páginas, o autor concluiu que seria leitura árida: ao lado das cartas, o pai também copiava documentos de sua vida escolar e profissional. Era um “tabelião de si mesmo”, na feliz expressão do filho.
Um dos melhores escritores brasileiros em atividade, Tezza vinha de um ciclo de romances que, sem serem estritamente políticos, adotam a realidade recente do País como pano de fundo – para ficar em dois exemplos, a Lava Jato insinua-se em A Tirania do Amor (2018), e A Tensão Superficial do Tempo (2020) pega o clima do primeiro ano do Governo Bolsonaro.
Até que ele finalmente resolveu se enfronhar nos cadernos do pai – e saiu deles com uma obra que oferece um painel amplo da vida nacional, atravessando a era de Getúlio Vargas e encerrando-se nos primeiros anos de Juscelino Kubitschek.
João Batista, diz o filho autor, é representativo daqueles anos de intensa urbanização do Brasil. Mais velho dos nove filhos de uma família de pequenos agricultores de Urussanga, Santa Catarina, ele desponta no livro no momento em que deixa a colônia italiana em que foi criado para se alistar no exército em Florianópolis.
Com poucos anos de escola, João Batista, no quartel, começa a reparar seu déficit educacional em cursos para jovens. Deixa o exército em 1935 para trabalhar como carteiro em Lages.
Mais tarde se torna professor de escolas na cidade – e, observa seu filho, nessa ascensão social entra o velho clientelismo brasileiro: João Batista busca os favores de políticos como Nereu Ramos, governador de Santa Catarina
Em suas cartas, que Tezza transcreve sem correções, às vezes transparece um amargo ressentimento social – mas ao mesmo tempo, sendo um leitor de livros de auto-ajuda, João Batista se esforça por manter um espírito assertivo.
Brotam daí rompantes de arrogância, como na rude cobrança feita a um antigo companheiro de exército que lhe deve dinheiro: “Não percebeu, claramente, com quem está tratando? Não está convencido de que eu só tive vitorias até agora?”
João Batista chegou a se formar em Direito, mas só exerceu o ofício de forma limitada, como advogado em cobranças judiciais. Era errático em seus empreendimentos. Nos anos finais, planejava se lançar em uma improvável carreira política. Ao mesmo tempo, investia em uma criação caseira de galinhas que só dava prejuízo.
Ao longo do livro, Tezza traça paralelos entre a vida do pai e sua própria trajetória. Antes de se acomodar na carreira universitária – na qual se aposentou – e se consagrar como escritor, também ele andou sem rumo: quis ingressar na Marinha Mercante mas desistiu ainda no curso de formação, viveu em uma comunidade riponga montada por um pitoresco guru chamado Rio Apa e foi até relojoeiro (para dar “um toque exótico à biografia”, diz).
A diferença entre pai e filho é em boa parte geracional. Tezza chegou à idade adulta em meio à liberação sexual e à contestação política dos anos 1960 e 1970.
João Batista submeteu-se à formação militar em uma era de totalitarismos. Chegou, aliás, a se encantar com a versão tropical do fascismo: o integralismo de Plínio Salgado.
A narrativa de Visita ao Pai ganha em vivacidade no final de 1940, quando um ciclone sacode a vida de João Batista: Elin, a futura esposa e mãe de seus filhos.
Mulher de ideias convencionais mas espírito independente, ela nunca se adequou ao papel de “indispensável colaboradora” que João Batista lhe atribuiu em uma carta aos pais.
“O teu amor é perigoso!… envez de dares-te, tomas-me”, diz o professor em carta à “megera indomada”. Os cadernos do pai trazem surpresas a Tezza: houve uma escapada extraconjugal de sua mãe.
O filho ficcionista fica intrigado com a ambição literária que o pai demonstra em seus minuciosos cadernos. Mas conclui que a aspiração do pai concentrava-se no status social então associado à literatura – daí sua prosa engessada por convenções antiquadas: em uma carta a Zilá, namorada anterior a Elin, João Batista exalta “a alvura doirada de teus cabelos” e “a graça cândida do marfim imaculado de teus dentes”.
Em O Filho Eterno, livro que lhe valeu os prêmios Jabuti, São Paulo e Portugal Telecom, Tezza tratou de sua própria experiência com o filho que tem síndrome de Down. Narrada em terceira pessoa, essa obra mantinha certo distanciamento emocional. Não se sente o mesmo em Visita ao Pai, livro em que o autor fala em primeira pessoa.
“Romance da memória”: assim Tezza categoriza a obra. Mas será talvez mais simples entendê-la como um ensaio longo. E um ensaio que cumpre vários propósitos.
Funciona como uma crônica da intimidade familiar, quando o filho busca entender o pai tão rígido que se foi muito cedo.
Ou como um exercício de crítica literária, quando são avaliados os esforços de João Batista, o escritor diletante.
E ainda como uma cápsula da história, quando o autor desvenda, em um só personagem, os dramas trágicos de um País e de um século.
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