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Do chão de fábrica à Sadia Halal: a liderança de Marquinhos Molina no Oriente Médio

2026/02/12 16:52
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Marcos Molina comprou o seu primeiro frigorífico, o Bataguassu, em Mato Grosso do Sul, aos 30 anos. Foi um passo decisivo para o início da construção de um império empresarial que veio a se tornar um dos maiores grupos de proteína animal do mundo, a Marfrig, rebatizada de MBRF com a incorporação da BRF.

Com essa mesma idade, seu primogênito, Marcos Fernando Marçal dos Santos, mais conhecido como Marquinhos Molina, hoje comanda a Sadia Halal, considerada um dos principais vetores de expansão da companhia no Oriente Médio, região que aparece cada vez mais no foco estratégico das empresas do setor.

“O meu jeito de fazer as coisas é um mix: um pouco do perfil do meu pai com o perfil da minha mãe. Porque eu sempre, desde pequeno, estive com eles para todo lado no crescimento da empresa”, disse Marquinhos Molina à Bloomberg Línea, em rara entrevista concedida - assim como o pai, low profile no trato com a imprensa.

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O pai é reconhecido no meio empresarial pela visão estratégica e pela capacidade de execução, agressiva quando necessário e oportunidades únicas são identificadas.

A mãe de Marquinhos e esposa de Marcos Molina, Márcia dos Santos, se fez presente na construção da Marfrig, da liderança da área financeira nos anos 2000 à estratégica presença de longa data no conselho de administração, desde 2007.

Se a sucessão é um desafio para muitos grupos empresariais no Brasil e no mundo, dado o não raro desejo da segunda geração em seguir outros caminhos, esse não parece ser definitivamente o caso da MBRF e da família Molina.

Marquinhos não esconde o sonho e a ambição de, um dia, assumir os negócios da família (veja mais abaixo). Mas diz que esse caminho será construído ao longo do tempo, ao ganhar uma experiência que reconhece que só o tempo pode lhe dar.

A sua missão atual, confiada pelo pai, já carrega o peso da responsabilidade.

Há pouco mais de um ano e meio, Marquinhos Molina se mudou para a Arábia Saudita para assumir como Chairman da Sadia Halal e como CEO da região.

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A joint venture que Marquinhos lidera nasceu da parceria entre a MBRF e a Halal Products Development Company, braço do Public Investment Fund (PIF), o maior fundo soberano do mundo. Essa operação também foi costurada principalmente por Marcos Molina.

O negócio foi avaliado em US$ 2,07 bilhões em outubro de 2025 - data em que a parceria foi anunciada - e reuniu sob uma única estrutura de negócios todos os ativos halal da companhia no Oriente Médio.

O acordo consolidou fábricas e centros de distribuição na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos, operações comerciais no Catar, no Kuwait e em Omã e o negócio de exportações para a região do Oriente Médio e do norte da África.

Também incorporou ativos industriais já existentes, como a planta de produtos processados e o centro de inovação em Jeddah, segunda maior cidade da Arábia Saudita.

Marquinhos contou que a sua chegada à região teve como objetivo principal estreitar os laços institucionais com os sauditas, além de reforçar a presença da companhia no Oriente Médio.

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Mas há desafios de ordem estratégica também: executar um plano que impulsione os resultados locais, que possa preparar a operação para um IPO (Oferta Pública Inicial, na sigla em inglês) na Bolsa de Riad, previsto para 2027, enquanto o executivo busca consolidar seu estilo de conduzir os negócios.

“Eu sempre busco ser um dos primeiros a chegar e um dos últimos a sair. É preciso liderar pelo exemplo. Eu cheguei com o desafio de aproximar a nossa relação com os principais stakeholders que temos”, afirmou.

Fazer negócios na Arábia Saudita exige compreender uma lógica própria, baseada em confiança, tempo e relacionamento próximo.

Além disso, o país é conhecido pela cultura mais conservadora aos olhos dos valores ocidentais - mulheres só ganharam o direito de dirigir em 2018, por exemplo.

“Todo mundo acha que a Arábia Saudita está crescendo e que é fácil fazer negócio. Só que não é. Eles demoram muito para confiar.”

Nesse ambiente, a parceria com o PIF funciona como uma espécie de acelerador institucional, mas não substitui a execução. “Ajuda a abrir portas, mas a confiança precisa ser construída na entrega. É como um fast-pass”, disse.

Antes de assumir a liderança da Sadia Halal, Marquinhos Molina passou pelas áreas de auditoria e de supply chain da MBRF para entender os negócios conduzidos pelo o seu pai (Foto: Divulgação)

Sonho grande a pés no chão

A semelhança com o pai como low profile se resume ao trato com a imprensa.

Na vida pessoal e na comunicação, diferentemente do pai, Marquinhos mantém presença ativa em redes sociais e compartilha diariamente no Instagram parte da rotina e dos compromissos à frente da operação no Oriente Médio.

O perfil aberto reúne imagens que vão da infância no frigorífico da família a registros recentes ao lado do Lek Trek, o frango que é mascote da Sadia.

A desenvoltura na comunicação lhe permite falar com naturalidade de seus sonhos, ao mesmo tempo em que exibe uma compreensão do que define como ordem natural das coisas - processos que levam a uma evolução gradual.

“Sonho em suceder meu pai um dia e entregar no mínimo o mesmo que ele fez. Ainda que espero mais. Quero crescer a empresa no longo prazo e gerar valor aos acionistas”, disse o executivo e herdeiro dos Molina.

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Ao ser questionado sobre se já se sente preparado para ocupar o cargo de liderança global, Marquinhos disse que não: “Eu acho que tenho muito a aprender ainda. Tem várias escadinhas que eu tenho que crescer e aprender dentro da empresa”.

E reconheceu que o “rótulo” de ser filho do dono não desaparece.

“Sempre vão me ver assim. Isso nunca vai sair”, disse o executivo, que, ao mesmo tempo, ressaltou a necessidade de estar pronto “onde for preciso”.

Marquinhos Molina ao lado do pai, Marcos Molina, controlador da MBRF, em evento da Sadia

Ainda pré-adolescente, Marquinhos acompanhava o pai em visitas a fazendas e frigoríficos e aprendia tudo sobre a operação de compra e venda de gado e de carnes, no momento em que Marcos Molina tinha sua empresa de distribuição e, posteriormente, começou a crescer com aquisições.

Marquinhos começou a trabalhar na Marfrig aos 17 anos em uma área não exatamente usual. “Começar pela auditoria foi muito bom porque me permitiu entender a empresa como um todo.”

Depois, ainda muito jovem, ele passou por diferentes áreas da companhia, incluindo um período de três anos como diretor de supply chain.

“Quando eu falo em aprender desde o chão de fábrica, é exatamente isso.”

Aos 20 anos, Marquinhos fez a sua primeira incursão no universo dos negócios fora do ambiente da empresa de sua família, ao se envolver na criação da Web Gados, uma plataforma digital voltada à negociação de gado.

Pouco depois, se formou em administração na Faap (Fundação Armando Alvares Penteado), em São Paulo.

Além de Marquinhos, sua irmã mais nova, Marcella Molina, também atua na MBRF, em que integra o Comitê de Sustentabilidade.

Assim como o irmão, ela passou por diferentes áreas da companhia com o propósito de ganhar experiência e entender os negócios, como auditoria interna, exportação, logística, supply chain, compras, controle de produção, comercial e marketing, de acordo com informações de seu perfil no Linkedin.

Um brasileiro na Arábia Saudita

Nos momentos fora do escritório e dos eventos em que representa a companhia, Marquinhos Molina contou que combina hábitos que identificam a sua geração, como o cuidado com a saúde e o bem-estar, com outros que remontam a costumes familiares.

No primeiro caso, vai para a academia e pratica exercícios regularmente pelas manhãs, antes de começar o dia no escritório.

E ele também gosta de aproveitar momentos de descanso na Arábia Saudita com um hábito típico brasileiro e, mais ainda, da família: preparar um churrasco - no caso, com picanha e assado de tira, seus cortes preferidos.

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Sem deixar de lado os costumes sauditas, disse que também gosta de shawarma, prato tradicional da região, “de preferência com frango Sadia”.

A presença da marca octogenária reflete o interesse de empresas globais de proteína animal pelo Oriente Médio, que está presente há anos no radar do setor, sustentado por um dos consumos per capita de frango mais elevados do mundo.

Potencial do mercado muçulmano

A Sadia anunciou um investimento de US$ 160 milhões em uma nova fábrica em Jeddah, cidade às margens do Mar Vermelho que oferece acesso estratégico a portos, rodovias e aeroportos.

A localização funciona como porta de entrada logística para mercados africanos, um dos vetores de expansão da operação halal.

“A Sadia exporta para a região há mais de 52 anos. Começou em 1973”, disse Marquinhos.

A abertura da distribuição própria na Arábia Saudita ocorreu em 2009. A criação da Sadia Halal, segundo ele, consolida essa trajetória.

Hoje, a marca lidera o mercado de frango congelado no Oriente Médio, com cerca de 37% de market share.

São cerca de 47 quilos consumidos por pessoa na região ao ano, patamar muito próximo ao do Brasil, de 47,6 quilos, e muito acima da média global, estimada em 17,9 quilos, segundo dados da companhia.

Além da MBRF, a JBS anunciou recentemente um investimento de US$ 150 milhões na produção de carne em Omã.

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O aporte ocorreu após a companhia adquirir 80% de participação em uma holding de alimentos recém-criada, estruturada para consolidar dois ativos produtivos no país. A Oman Food Capital (OFC) ficará com os 20% restantes.

O interesse crescente reflete também o potencial de demanda: o mercado muçulmano reúne cerca de um quarto da população mundial e cresce acima da média global.

Segundo Marquinhos, a Arábia Saudita funciona como uma espécie de ponto de partida para acessar mercados muçulmanos ainda pouco explorados por grandes companhias globais de proteína, especialmente na África e em partes da Ásia.

São regiões onde o consumo cresce em ritmo acelerado e a demanda por produtos halal ganha ainda mais relevância.

O objetivo, segundo ele, não é apenas ampliar os volumes de frango in natura comercializados mas também expandir a presença em categorias de maior valor agregado, como produtos processados.

Se os planos avançarem como planejado, o IPO da Sadia Halal pode marcar não apenas um novo capítulo de expansão internacional da MBRF mas também habilitará Marquinhos para missões ainda maiores à frente da operação global - assim como, décadas atrás, seu pai deu início a uma trajetória de sucesso nos negócios.

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