O banco digital PicPay deu entrada nesta segunda-feira (6) em um pedido de oferta pública inicial de ações (IPO) na Nasdaq, a bolsa de tecnologia dos Estados Unidos. Se concretizada, a operação pode movimentar até US$ 500 milhões e marca uma nova tentativa da empresa de acessar o mercado de capitais norte-americano após engavetar planos similares em 2021.
A fintech, controlada pela holding J&F — que também detém a JBS —, já conta com um compromisso firme de investimento. A gestora Bicycle, liderada por Marcelo Claure, ex-executivo do SoftBank, garantiu aporte de US$ 75 milhões na operação.
Nos documentos protocolados junto à Securities and Exchange Commission (SEC), a empresa apresentou números robustos. O PicPay registrou lucro líquido de R$ 313,8 milhões nos nove primeiros meses de 2025, um salto de 82% em relação aos R$ 172 milhões apurados no mesmo período de 2024.
A receita total também impressionou: foram R$ 7,26 bilhões entre janeiro e setembro do ano passado, quase o dobro dos R$ 3,78 bilhões do ano anterior. O número de clientes ativos subiu de 37,5 milhões para 42,1 milhões.
Atualmente, a fintech conta com cerca de 66 milhões de clientes cadastrados e uma carteira de crédito de R$ 18,7 bilhões. A taxa de inadimplência superior a 90 dias está em 6,2%.
Esta não é a primeira investida do PicPay no mercado americano. Em abril de 2021, a empresa havia registrado um pedido de IPO na SEC, mas o processo foi cancelado em 2022 diante de condições de mercado desfavoráveis. À época, a companhia ainda operava no vermelho.
Agora, com balanços sólidos e um mercado de IPOs sinalizando recuperação gradual nos Estados Unidos, a fintech tenta novamente. A expectativa é que a oferta aconteça ainda em janeiro, com apresentações para investidores previstas para começar por volta do dia 20.
Caso a operação seja concluída, os papéis do PicPay passarão a ser negociados sob o ticker “PICS”. Os coordenadores da oferta são Citigroup, Bank of America e Royal Bank of Canada (RBC).
Segundo o prospecto, os recursos captados no IPO serão destinados a fins corporativos gerais, incluindo capital de giro, despesas operacionais e investimentos. A empresa pretende fortalecer o capital, financiar crescimento orgânico, investir em tecnologia e desenvolver novos produtos — como seguros, investimentos e crédito.
O movimento do PicPay expõe as fragilidades do mercado de capitais brasileiro. Enquanto a B3 completa quatro anos sem registrar um único IPO — o último foi em agosto de 2021 —, empresas nacionais fazem fila para listar ações nos Estados Unidos. Nas últimas semanas, além do PicPay, outras companhias brasileiras protocolaram pedidos de abertura de capital em Nova York.
A combinação de taxa Selic em patamares elevados — atualmente em 15% ao ano, o maior nível desde julho de 2006 — e incertezas fiscais criou um ambiente hostil para novas aberturas de capital no Brasil. Com os juros altos, investidores preferem a segurança da renda fixa.
Além disso, o número de companhias listadas na B3 vem diminuindo: eram 385 em janeiro de 2022 e hoje são 335. Empresas como EDP Brasil, Cielo e JBS realizaram Ofertas Públicas de Aquisição (OPA) para fechar capital ou migraram suas listagens para o exterior.
Do outro lado, o mercado americano oferece vantagens difíceis de ignorar: maior liquidez, múltiplos mais atrativos e acesso a um pool mais amplo de investidores institucionais. Empresas do setor financeiro, em particular, encontraram sucesso nos Estados Unidos. Nubank, Stone, XP Inc., Pátria Investimentos e Inter são exemplos de fintechs brasileiras que optaram por Wall Street.
O desafio para o Brasil é claro: ou cria condições para reter suas empresas de maior potencial, ou assiste passivamente à migração de valor para outros mercados. O caso do PicPay, se bem-sucedido, pode abrir caminho para uma nova onda de saídas — consolidando Wall Street como o destino preferencial das empresas brasileiras mais promissoras.
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