Segundo um dos principais especialistas em defesa, a guerra do Presidente Donald Trump contra o Irão tornou impossível para milhões de americanos voltarem a confiar na política externa do seu governo.
"Durante décadas, o governo dos EUA esteve disposto a iniciar guerras, mas não a geri-las de forma estratégica e transparente, enganando sistematicamente os seus cidadãos para justificar o aventureirismo no estrangeiro", escreveu Alexander Langlois, investigador colaborador da Defense Priorities, na terça-feira para a Reason. "A conduta da administração Trump na atual guerra com o Irão não é exceção."
Langlois acrescentou: "As afirmações do Presidente Donald Trump sobre a 'vitória', enquanto a guerra persiste através de um bloqueio e múltiplos reforços de tropas sem um desfecho vitorioso claro, evidenciam como uma retórica enganosa dita a abordagem de Washington à guerra nos dias de hoje. Esta guerra poderá, contudo, marcar uma lição crucial e um potencial ponto de viragem, obrigando a nação a confrontar-se com os verdadeiros custos do conflito violento."
O especialista em política externa explicou que a perda de credibilidade de Trump em relação à guerra do Irão não ocorreu de forma isolada. Na verdade, há mais de 60 anos que os responsáveis pela política externa americana tomam decisões impopulares que foram corroendo a capacidade do público de acreditar nas suas palavras.
"Incapaz de alcançar objetivos já de si pouco claros e presa num atoleiro da sua própria criação, Washington escolheu a destruição como característica definidora da guerra", observou Langlois. "A evolução da guerra nesta direção reflete a retórica da 'contagem de corpos' usada pela Casa Branca durante a Guerra do Vietname, na qual se acreditava que uma narrativa de morticínio em massa e destruição reforçaria a perceção da vitória americana. Na realidade, apenas obscureceu o atoleiro, prolongando uma guerra já perdida num conflito que, desde o início, não tinha resolução militar possível."
Comparando o Vietname ao Irão, Langlois concluiu que "uma derrota estratégica não pode ser definida como uma vitória. Uma mentira continua a ser uma mentira. Essa vitória é e será vazia."
Langlois não é o único especialista em política externa a lançar o alerta sobre a guerra do Irão protagonizada pelo presidente e sobre como a sua crescente impopularidade poderá prejudicar a política externa americana.
"O ataque de Trump aos iranianos no Domingo de Páscoa ofereceu, assim, um contraste marcante até com os seus antecessores mais grosseiros", escreveu recentemente a historiadora presidencial Barbara A. Perry para The Atlantic. Perry citou a publicação nas redes sociais feita por Trump no Domingo de Páscoa dirigida ao Irão, na qual escreveu: "Terça-feira será o Dia da Central Elétrica, e o Dia da Ponte, tudo junto num só, no Irão. Não haverá nada igual!!! Abra o E—— Estreito, seus loucos b------, ou viverão no Inferno - FIQUEM A VER! Louvor a Alá. Presidente DONALD J. TRUMP"
Embora presidentes como Lyndon Johnson e Richard Nixon fossem notoriamente grosseiros em privado, Perry salientou que eram muito cuidadosos na proteção da imagem e credibilidade do cargo, não se expressando assim em público.
"Todos os presidentes anteriores quiseram parecer sérios, dignos e estadistas ao falar com os seus concidadãos americanos e com o mundo sobre a guerra", escreveu Perry. "Nem todo o comandante-em-chefe pode rivalizar com Abraham Lincoln em Gettysburg — ou sequer com Franklin D. Roosevelt a descrever o 'ataque não provocado e vil do Japão no domingo, 7 de dezembro de 1941' como um 'dia que viverá na infâmia' — mas todos os outros tentaram."


